quinta-feira, 10 de março de 2016

[História da Educação] Consciência Histórica

1. Consciência Histórica: motivos e razões para se pensar a História além do viés tradicional.

Uma abordagem tradicional da História  acaba a aceitando como repetição incessante de datas, nomes, conceitos. Esse caminho tradicional acabou sendo predominante porque a História em geral e a História da Educação em específico não é pautada em teoria da História, mas tornou-se um conjunto dogmático de acontecimentos estabelecidos  para introduzir os conhecimentos tradicionais do currículo. Ou seja, um conjunto de conhecimentos esclerosados feitos a partir de cópias de livro de História. Resultando num conhecimento velho e antiquado. Afinal (pensam eles) A História não muda!
O passado realmente passou, mas a consciência do que se passou, isso muda de diversas formas. Refletindo em fatos do nosso próprio cotidiano temos diversas perspectivas do que aconteceu em nossa vida conforme o tempo passa. São as interpretações sobre “o que se passou” que mudam. Para pensar nesse problema trazemos um conceito importante de um autor contemporâneo chamado Jörn Rüsen. Para tal autor cada pessoa tem uma “Consciência Histórica”. Isso faz com que as pessoas interpretem o passado de maneira diferente.

“A consciência histórica é o trabalho intelectual realizado pelo homem para tornar suas intenções de agir conformes com a experiência do tempo. Este trabalho é efetuado na forma de interpretações das experiências do tempo” Jörn Rüsen. Razão Histórica. Brasília: Editora da UNB, 2001, p.59.

O amadurecimento da consciência histórica de cada indivíduo o auxilia a desenvolver competências e habilidades específicas do conhecimento histórico, tais como:

l        Percepção diacrônica do tempo = capacidade de ordenar cronologicamente acontecimentos no tempo histórico.
l        Percepção sincrônica do tempo = capacidade de utilizar-se da experiênbcia histórica para orientar a vida para o presente e futuro.
l        Capacidade de investigação = o trabalho com fontes históricas auxilia o indivíduo a perceber discursos indiretos e detalhes lógicos, também auxilia na argumentação.
l        Desenvolvimento cultural amplo = desde atividades culturais estritas (como artes)  até conhecimentos gerais.
l        Perspectiva de multiplicidade de narrativa = para o curso de Direito é importante que os alunos entendam que um mesmo fato pode ser descrito por vários narradores de maneira diferenciada sem que, necessariamente, uma das narrativas seja falsa.


RÜSEN, Jörn. o desenvolvimento de a competencia narrativa en o aprendizaje historico. In: Revista PROPUESTA EDUCATIVA. Buenos Aires: FLACSO, ano4, nº7, pp.27-36, outubro de 1992.

O desenvolvimento da competência narrativa na aprendizagem histórica. Uma hipótese ontogenética relativa à consciência moral

Jorn Rusen

A aprendizagem histórica pode se explicar como um processo de mudança estrutural na consciência histórica. A aprendizagem histórica implica muito mais que o simples adquirir de conhecimento do passado e a expansão do mesmo.Visto como um processo pelo qual as competências se adquirem progressivamente, emerge como um processo de mudança de formas estruturais pelas quais tratamos e utilizamos a experiência e conhecimento da realidade passada, passando de forma tradicionais de pensamento aos modos genéticos.

Tradução Ivan Furmann

1. Uma narração, quatro versões

Um antigo castelo se encontra nas terras altas de Escócia. É a residência ancestral dos chefes do clã Maclean e está ainda na posse de um membro da família, quem vive no castelo, observa sobre a muralha do castelo uma pedra com a gravação da seguinte inscrição: "Se algum homem do clã Maclonish aparecer diante deste castelo, ainda que venha a meia-noite, com a cabeça de um homem em sua mão, encontrará aqui segurança e proteção contra tudo ".
O texto é de um velho tratado celebrado em Highlands numa ocasião memorável. Num passado distante, um dos antepassados de Maclean obteve do rei de Escócia uma concessão de terras que pertenciam a outro clã porque aqueles haviam perdido tal concessão por terem ofendido ao rei. Maclean, acompanhado de sua esposa, avançou então com uma força armada de homens para tomar posse de suas novas terras. No confrontamento e batalha com o outro clã, Maclean foi derrotado e perdeu sua vida, e assim sua esposa, grávida, caiu nas mãos dos vencedores. O chefe do clã vitorioso permitiu que a grávida, Lady Maclean, vivesse sobre a custódia da família Maclonish com uma estipulação específica: se a criança que nascesse fosse um menino, deveria ser morto imediatamente, se fosse uma menina, se permitiria que vivesse. A esposa de Maclonish, que também estava grávida, deu a luz uma menina quase que ao mesmo tempo em que Lady Maclean deu a luz a um menino. Elas então trocaram as crianças.
O jovem Maclean havendo sobrevivido por esta ardilosa sentença de morte que sobre ele pesava antes de nascer, recuperou com o tempo seu patrimônio original. Em agradecimento ao clã Maclonish designou então o seu castelo como lugar de refúgio para qualquer membro daquela família que se encontrasse em perigo.
Esta narração se encontra no livro Journey to the Western Islands of Scotland, de Samuel Johnson, publicado pela primeira vez em 1775, e minha intenção neste trabalho é utilizar esta historia para demonstrar a natureza da competência narrativa e suas diversas formas. Além disso, a importância de tal competência para a consciência moral. Para aproximarmos de uma maneira mais concreta, permita-nos imaginar esta narração dentro do contexto de uma situação real em que se desafiam os valores morais, e onde seu uso e legitimação requerem argumentos baseados historicamente.
Imagine que você é um membro do clã Maclean e que vive atualmente no castelo ancestral. Uma noite escura, um membro do clã Maclonish – permita-nos chamá-lo de Ian – bate em sua porta pedindo ajuda. A polícia o está seguindo – lhe conta – por causa de um crime de cuja autoria o acusam. Como você reagiria? O ajudaria a se esconder da policia ou decidiria por alguma outra forma de agir?
Imagine que um amigo casualmente lhe visita naquela noite e, portanto, precisa lhe explicar o que está acontecendo, pois este amigo não conhece a história dos clãs. Não importa qual atitude você irá  tomar em relação a Ian Maclonish, você será obrigado a narrar a seu amigo o relato dos bebês trocados, fazendo de tal forma que seu amigo compreenda a situação (tornando-a interpretável) na qual você se encontra e a decisão que deverá tomar.
Sua narração desta lenda do clã provavelmente diferirá dependendo da natureza de sua decisão. Além disso, sua decisão original depende em si mesma de sua interpretação da antiga lenda do clã em relação às crianças trocadas.
Assiná-lo, para tanto, a existência de quatro possibilidades principais para tal interpretação.

1. Você pode esconder Ian Maclonish porque sente que existe uma obrigação de sua parte para honrar o antigo acordo de Highland. Neste caso dirá a seu amigo que você – como um Maclean – se sente obrigado a assistir Ian porque considera vigente a antiga narrativa e então existem ainda laços entre os dois clãs. Você relata a lenda dos bebês trocados, com a conclusão que esconderá Ian Maclonish da polícia, para manter o antigo tratado entre os clã, renovando e continuando assim a validez na relação entre os dois grupos.

2. Você pode esconder Ian Maclonish, fazendo tal por uma multiplicidade de razões. Assim pode contar a seu amigo que ajudou Ian, porque no passado um Maclonish uma vez ajudou um membro do clã Maclean, e agora você se sente obrigado a atuar reciprocamente sobre a base de um principio geral de reciprocidade de favores. Ou pode dizer que o ajudou para cumprir a obrigatoriedade de um tratado entre clãs, porque os tratados devem ser cumpridos, isto é, estão unidos pelo tratado. Logo você lhe conta a lenda concluindo com a observação de que a ajuda mútua ou a manutenção de um tratado entre clãs é, para você, um guia e um princípio moral importante, como já foi provado quando o bebê foi salvo.

3. Você pode se negar a esconder Ian Maclonish. Então primeiramente tem que explicar o pedido de auxílio daquele, narrando o conto dos bebês e a pedra com a inscrição. Porém,  ao comentar a história irá afirmar que não acredita nela, que é meramente um "mito" ou uma "lenda" desprovida de qualquer evidência ou validade comprometedora, e que não o obriga moralmente de nenhuma maneira. Também pode argumentar que desde a introdução do direito inglês moderno, aqueles velhos tratados perderam sua validade, que uma vez tiveram, e são agora letra morta. Neste caso, você apresenta uma série ou combinação de argumentos histórico-críticos para desfazer-se da obrigação de manter o antigo pato. Para tanto argumenta historicamente para cortar qualquer laço de união entre você e o clã Maclonish, o qual pode ter sido válido e obrigatório no passado.

4. Você pode decidir-se por convencer Ian Maclonish de que é inútil esconder-se da policia e que seria melhor para ele entregar-se às autoridades. Você, por sua vez, promete fazer tudo o que puder por ajudá-lo, por exemplo, contratando ao melhor advogado disponível. Neste caso, você narra o conto das crianças, porém o circunscreve agregando o seguinte argumento: o sistema legal transformou-se muito desde o direito do clã da era pré-moderna até a época moderna. Você ainda se sente obrigado a ajudar alguém do clã Maclonish, porém deseja fazê-lo de uma forma baseada em considerações modernas, e não como prescrevia o antigo pacto.

Esta narração ancestral que nos fala dos Maclean, dos Maclonish e da troca dos bebês em quatro versões, nos fornece o ponto de partida para meus argumentos, o conto indica a necessidade da consciência histórica para tratar dos valores morais e do raciocínio moral. Espero demonstrar que suas quatro variantes representam quatro versões essenciais de consciência histórica, refletindo quatro etapas do desenvolvimento através da aprendizagem.

2. A relação entre a consciência histórica, os valores morais e o raciocínio

Na situação representada em nossa narração devíamos decidir um curso de ação. Tal decisão dependia de valores. Estes valores são geralmente princípios, guias de comportamento, idéias ou perspectivas chaves que sugerem o que se deveria fazer numa situação determinada aonde existem várias opções. Tais valores funcionam como uma fonte de arbitragem nos conflitos e como objetivos que nos guiam ao agir.
Que significado tem apontar tais valores em termos morais? Nossas perspectivas demarcam nossas ações sistematicamente, reconhecem a relação social dentro da qual vivemos e devem  decidir um curso de ação a ser tomada. Elas expressam esta relação social como uma obrigação para nós, dirigindo-nos, assim, até a essência de nossa subjetividade, recorrendo a nosso sentido de responsabilidade e nossa consciência.
Como entra a historia nesta relação moral entre nossa ação, nossa personalidade e nossas orientações  valorativas? A narração esquematizada ao principio deste ensaio pode nos servir para proporcionar uma resposta: quando se supõe que os valores morais guiam as ações que tomamos numa situação dada, devemos relacionar os valores a essa situação, interpretar aos mesmos e seu conteúdo moral com referência à realidade na qual os aplicamos e avaliar a situação em termos de nosso código de valores morais aplicáveis. Para essa mediação entre valores e realidade orientada pela ação, a consciência histórica é um pré-requisito necessário. Sem tal consciência, não seríamos capazes de entender porque Ian Maclonish nos pediu para escondê-lo da policia. Sem tal consciência como pré-requisito para a ação, seríamos incapazes de analisar a situação e chegar a uma decisão que resulte plausível para todas as partes implicadas, – Ian, meu amigo que me visita, e eu como um Maclean –.
Entretanto, por que tem que ser a consciência histórica um pré-requisito necessário para a orientação numa situação presente que demanda ação? Depois de tudo, tal consciência por definição aponta ainda para feitos no passado. A resposta aponta que a consciência histórica funciona como um modo específico de orientação em situações reais da vida presente: tem como função ajudar-nos a compreender a realidade passada para compreender a realidade presente. Sem ter narrado previamente a antiga historia dos bebês trocados, havia sido impossível explicá-la a meu amigo visitante a "situação atual" e justificar – o que quer dizer legitimar – minha decisão. Ademais, o poder explicativo da narração serve para ensinar os traços gerais da situação não somente para quem está de fora senão para mim mesmo, um homem do clã Maclean, e para alguma outra parte implicada.
Então, o que é especificamente "histórico" nesta explicação, nesta interpretação da situação e em sua legitimação? O histórico está na orientação temporal, unindo o passado e o presente de forma tal que confere uma perspectiva futura da realidade atual. Isto implica que a referencia ao tempo futuro está contida na interpretação histórica do presente, já que essa interpretação deve permitir-nos atuar – ou seja, deve facilitar a direção de nossas intenções dentro de uma matriz temporal – Quando dizemos que nos sentimos compelidos ou obrigados pelo antigo tratado, definimos una perspectiva futura em nossa relação até ao clã Maclonish. O mesmo é verdade em relação a todas as outras explicações e legitimações históricas associadas a nossa decisão.
Desejo extrair do exemplo narrativo dado uma característica geral da consciência histórica e sua função na vida prática.2 A consciência histórica serve como um elemento orientativo chave, dando a vida prática um marco e uma matriz temporal, uma concepção do “curso do tempo” que flui através dos assuntos mundanos da vida diária. Essa concepção funciona como um elemento nas intenções que guiam a atividade humana, nosso curso de ação. A consciência histórica evoca ao passado como um espelho da experiência no qual se reflete a vida presente e suas características temporais são, assim mesmo, reveladas.
Afirmando suscintamente, a historia é o espelho da realidade passada no qual o presente aponta para aprender algo acerca de seu futuro. A consciência histórica deve ser conceituada como uma operação do intelecto humano para aprender algo neste sentido. A consciência histórica trata do passado como experiência, nos revela o tecido da mudança temporal dentro do qual estão amarradas nossas vidas, e as perspectivas futuras até as quais se dirige a mudança. Em palavras de Shakespeare: “Como o destino se engana, e as mudanças chegam ao topo da transformação, com diversos sabores”.3
A historia é um nexo significativo entre o passado, o presente e o futuro – não meramente uma perspectiva do que aconteceu, “wie es eighntlich gewesen” – é uma tradução do passado ao presente, uma interpretação da mudança temporal que abarca ao passado, ao presente e a expectativa de acontecimentos futuros. Esta concepção amolda os valores morais a um “corpo temporal” (por exemplo, o corpo da validade contínua de um antigo tratado), a historia reviste aos valores da experiência temporal. A consciência histórica transforma os valores morais em totalidades temporais: tradições, conceitos de desenvolvimento ou outras formas de compreensão do tempo. Os valores e as experiências estão mediatizadas e sintetizadas em tais concepções de mudança temporal.
É assim que a consciência histórica de um membro contemporâneo do clã Maclean pode traduzir a idéia moral pela qual os tratados são obrigatórios e devem ser cumpridos na forma concreta de um acordo presente válido mais além do tempo. A consciência história amalgama “ser” e “dever” numa narração significante que refere acontecimentos passados com o objeto para fazer-se inteligível no presente e conferir uma perspectiva futura a essa atividade atual. Desta forma, a consciência histórica faz uma contribuição essencial à consciência ética-moral. Os procedimentos criativos da consciência histórica são necessários para os valores morais e o raciocínio moral, como se a plausibilidade dos valores morais estivessem em perigo. Aqui a referencia não se dirige justamente até a plausibilidade lógica dos valores (em relação a sua coerência, por exemplo), senão melhor, até a plausibilidade no sentido de que os valores devem ter uma relação aceitável com a realidade.
A consciência histórica tem uma função prática:4 confere a realidade uma direção temporal, uma orientação que pode guiar a ação intencionalmente, através da mediação da memória histórica. Pode-se chamar a essa função “orientação temporal”. Essa orientação tem lugar em duas esferas da vida concernentes: a) a vida prática e; b) a subjetividade interna dos atores. A  orientação temporal da vida teme dois aspectos, um interno e outro externo. O aspecto externo da orientação pelo caminho da historia revela a dimensão temporal da vida prática, descobrindo a temporalidade nas circunstâncias marcadas pela atividade humana. O aspecto interno da orientação pelo caminho da historia revela a dimensão temporal da subjetividade humana, outorgando auto-compreensão e conhecimento das características temporais dentro das quais aqueles tomam a forma de identidade histórica, ou seja, uma consistência constitutiva das dimensões temporais da personalidade humana.
Por meio da identidade histórica a personalidade humana expande sua extensão temporal mais além dos limites do nascimento e da morte, para além da mera mortalidade. Através desta consciência histórica, uma pessoa se torna parte de um todo temporal mais extenso que o de sua vida temporal.
Assim, então, o rol de um membro atual do clã Maclean pressupõe uma identidade familiar histórica que se pode rastrear no antigo período de batalhas entre clãs pela concessão real de um território. Dando hoje assistência a Ian Maclonish, afirmamos esta identidade, que significa ser um Maclean com respeito ao futuro, um exemplo mais familiar de tal “imortalidade temporal” (assim pode ser caracterizada a identidade histórica) é a identidade nacional. As nações freqüentemente localizam suas origens num passado imemorial e antigo, e projetam uma perspectiva de futuro ilimitado que engloba a própria afirmação do desenvolvimento nacional.

3. A competência narrativa da consciência histórica

A forma lingüística dentro da qual a consciência histórica realiza sua função de orientação é a da narração. A partir desta visão, as operações pelas quais a mente humana realiza a síntese histórica das dimensiones do tempo simultaneamente com as do valor e a experiência, se encontram na narração: o relato de uma história.5 Uma vez esclarecidas a forma narrativa dos procedimentos da consciência histórica e sua função como meio de orientação temporal, é possível caracterizar a competência específica e essencial da consciência histórica e sua função como meio de orientação temporal, é possível caracterizar a competência específica e essencial da consciência histórica como “competência narrativa”.6 Essa competência pode definir-se como a habilidade da consciência humana para levar a cabo procedimentos que dão sentido ao passado, fazendo afetiva uma orientação temporal na vida prática presente por meio da recordação da realidade passada. Esta competência geral relativa a “dar sentido ao passado” pode definir-se em termos dos três elementos que constituem juntos uma narração histórica: forma, conteúdo e função. Em relação ao conteúdo, se pode falar de “competência para a experiência histórica”; em relação à forma, de “competência para a interpretação histórica”; e em relação à função, de “competência para a orientação histórica”.
a) A consciência histórica se caracteriza pela "competência de experiência". Esta competencia supõe uma habilidade para ter experiências temporais. Implica na capacidade de "aprender a observar o passado e resgatar sua qualidade temporal, diferenciando-o do presente. Uma forma mais elaborada de tal competência é a "sensibilidade histórica". Em relação a nossa narrativa, é a competência para entender a pedra na muralha do castelo Maclean e a necessidade de prestar atenção à inscrição, e dizer, que contém informação importante para os membros da família Maclean.
b) A consciência histórica se caracteriza  posteriormente pela "competência de interpretação". Esta competência é a habilidade para diminuir diferenças de tempo entre o passado, o presente e o futuro através de uma concepção de todo temporal significante que abarque todas as dimensiones do tempo. A temporalidade da vida humana funciona como um instrumento principal desta interpretação, desta tradução de experiências da realidade passada a uma compreensão do presente e a expectativas em relação ao futuro. Essa concepção se fala na essência da atividade significante-criativa da consciência histórica. É a fundamental "filosofia da historia" ativa dentro das atividades significante-criativas da consciência histórica, que marca todo pensamento histórico.
Em relação a nossa narrativa, implica na competência para integrar o acontecimento da troca dos bebês num conceito de tempo que une aquele antigo período com o presente, dando-lhe a este complexo uma significação de peso histórico para os Maclean em sua relação com os Maclonish. Essa concepção pode ser materializada na noção da validade indestrutível do tratado, ou na evolução do direito de uma forma pré-moderna a sua manifestação moderna.
c) A consciência histórica, finalmente, se caracteriza pela "competência de orientação". Esta competência supõe ser capaz de utilizar o todo temporal, com seu conteúdo de experiência, para os propósitos de orientação da vida. Implica guiar a ação, por meio das noções de mudança temporal, articulando a identidade humana com o conhecimento histórico, inter-relacionando a identidade no enredo e na própria trama concreta do conhecimento histórico. Em relação à narrativa de Highlands, supõe a habilidade para utilizar a interpretação do tratado para analisar a situação presente e determinar um curso de ação, ou seja, decidir se se vai esconder Ian ou não, ou vai assistir-lhe de qualquer outra forma, e legitimar esta decisão – em cada instância usando uma "razão histórica adequada" – relativa a identidade de um membro do clã Maclean.

4. Quatro tipos de consciência histórica

No capítulo anterior, intentou-se explicar as operações básicas da consciência histórica, sua relação com a consciência moral e suas principais competências. A seção final deste escrito trata da questão do desenvolvimento.
As diferentes teorias sobre o desenvolvimento da consciência moral elaboradas e empiricamente confirmadas por pensadores como Piaget, Kohlberg e outros, são habituais na literatura sobre desenvolvimento cognitivo. Minha intenção aqui é propor uma teoria análoga de desenvolvimento concernente à realidade moral e sua atividade através de um ato narrativo: o relato de uma historia acerca dos feitos passados.
Para descobrir as etapas do desenvolvimento estrutural na consciência histórica, é necessário, antes de tudo, distinguir as estruturas básicas dentro dos processos concernentes a construção do sentido histórico do passado. Proponho explicar estas estruturas básicas na forma de uma tipologia geral do pensamento histórico. Esta tipologia abarca conceitualmente o campo completo de suas manifestações empíricas, e para tanto pode utilizar-se para o trabalho comparativo na historiografia incluindo comparações inter-culturais.8
A tipologia já está implícita nos quatro modos diferentes de argumentação histórica ja referidos brevemente em relação ao pedido de Ian Maclonish para esconder-se da polícia. Qual é então o significado tipológico destes quatro modos?
Meu ponto de partida é a função da narração histórica. Como já se mencionou, essa narração tem a função geral de servir para orientar a vida prática no tempo. Mobiliza a memória da experiência temporal, desenvolvendo a noção de um todo temporal abarcativo, e confere uma perspectiva temporal interna e externa a vida prática.
A consciência histórica realiza esta função geral de quatro formas diferentes, baseadas em quatro princípios distintos para a orientação temporal da vida: a) a afirmação das orientações dadas, b) a regularidade dos modelos culturais e de vida (Lebensformen), c) a negação e d) a transformação dos modelos de orientação temática. Todos estes são trazidos através da mediação da memória histórica.
Há seis elementos e fatores da consciência histórica através dos quais se podem descobrir estes tipos: 1. seu conteúdo, ou seja a experiência dominante do tempo, trazida desde o passado; 2. As formas de significação histórica, ou as de totalidades temporais; 3. o modo de orientação externa, especialmente em relação as formas comunicativas de vida social; 4. o modo de orientação interna, particularmente em relação a identidade histórica como a essência da historicidade no conhecimento da personalidade humana e a auto-compreensão; 5. a relação da orientação histórica com os valores morais; e 6. sua relação com o raciocínio moral (Ver tabela 1).

Esquema da tipologia

a)O tipo tradicional

As tradições são elementos indispensáveis de orientação dentro da vida prática, e sua negação total conduz a um sentimento de desorientação massiva. A consciência histórica funciona em parte para manter vivas essas tradições.
Quando a consciência histórica nos provê de tradições, nos faz recordar as origens e a repetição de obrigações, fazendo-o na forma de sucessos passados de concreção fática que demonstram o atributo de validade e obrigatoriedade dos valores e dos sistemas de valores. Tal é o caso quando, por exemplo, em nosso rol de membros do clã Maclean, sentimos um laço de obrigação até um antigo tratado.
Em tal aproximação, tanto nossa interpretação do que ocorreu no passado, como nossa justificação para esconder a Ian Maclonish com "tradições". Alguns outros exemplos dessa "tradição" são os discursos comemorativos públicos, os monumentos públicos, incluindo as historias privadas narradas entre as pessoas com o propósito de conformar sua relação pessoal. Assim, tanto você como sua esposa estaram "apaixonados" na narração que descreve como chegaram a apaixonar-se – se por certo vocês ainda se amam–.
As orientações tradicionais apresentam a totalidade temporal que faz significante ao passado e relevante a realidade presente e a sua extensão futura como uma continuidade dos modelos de vida e dos modelos culturais prescritos mais além do tempo.
As orientações tradicionais guiam externamente a vida humana por meio de uma afirmação das obrigações que requerem consentimento. Essas orientações tradicionais definem a "unidade" dos grupos sociais ou das sociedades em seu conjunto, desta forma mantendo o sentimento de uma origem comum.
Em relação à orientação interna, essas tradições definem a identidade histórica, a afirmação dos modelos culturais pré-determinados de autoconfiança e autocompreensão. Marcam a formação da identidade como um processo no qual se assumem e se atuam os papéis. A orientação histórica tradicional define a moral corno tradição. As tradições expressam a moral como uma estabilidade inquestionada de Lebensformen, de modelos de vida e modelos culturais mais além do tempo e de suas vicissitudes.
Em relação ao raciocínio moral, as tradições são razões que mantém e apontam a obrigação moral dos valores. Se a vida prática se orienta predominantemente em termos de tradições, a razão que molda aos valores se encontra na permanência de surrealidade na vida social, uma permanência que a historia ajuda atrair a nossa memória.

b) o tipo exemplar

Não são as tradições as que utilizamos aqui como argumento, senão também as regras. A história das lutas entre os clãs e a troca dos bebês exemplifica aqui uma regra geral atemporal: nos ensina qual curso de ação tomar e qual devemos evitar tomar.
Aqui a consciência histórica se refere a experiência do passado na forma de casos que representam e personificam regras gerais de mudança temporal e a conduta humana. O horizonte da experiência temporal se encontra expandida de forma significante neste modo de pensamento histórico. A tradição se move dentro de um marco de referência empírica bastante estreito, porém a memória histórica estruturada em termos de exemplos está aberta para processos num número infinito de acontecimentos passados, desde o momento em que estes não possuem relação com uma idéia abstrata de mudança temporal e de a conduta humana, válido para todo o tempo, ou ao menos cuja validade não está limitada a um acontecimento específico.
O modelo de significação que nos concerne aqui tem a forma de regras atemporais. Nesta concepção se vê a história como uma recordação do passado, como uma mensagem ou lição para o presente como algo didático: historiae vitae maestrae é um aforismo tradicional na tradição historiográfica ocidental.9 Ela nos ensina as normas, sua derivação de casos específicos, e sua aplicação.
O modo de orientação realizado pela consciência histórica neste tipo de exemplo está enfocado pela regra: implica a aplicação de regras provadas e derivadas historicamente a situações atuais. Muitos exemplos clássicos da historiografia numa variedade de culturas diversas refletem este tipo de significação histórica. Na antiga tradição chinesa, o melhor exemplo é o clássico de Suma-Kuang, Tzu-chih t'ung-chien (Um espelho para o governo). Seu próprio título indica como concebe o passado como exemplo: a moral política se ensina na forma de casos de governo que tiveram êxito ou foram sucumbidos.
Em relação a orientação interna da vida, o pensamento histórico exemplar relaciona os papéis da vida a as regras e princípios, e tem como função legitimar tais papéis através do raciocínio abstrato. A identidade histórica é o marco dado de prudência (prudentia). Sua matéria é a competência dada para derivar regras gerais de casos específicos e aplicá-los a outros casos. Procedendo deste modo, tal forma de  consciência histórica faz uma contribuição significante ao raciocínio moral. O pensamento histórico exemplar revela a moralidade de um valor ou de um sistema de valores, culturalmente materializados na vida social e pessoal, através da demonstração de sua generalidade, ou seja, que tem uma validade que se estende a uma gama de situações. Conceitua-se a moral como possuindo validade atemporal.
A contribuição deste modo de interpretação histórica ao raciocínio moral é claro: a história enseja o argumento moral por meio dela aplicação de princípios a situações concretas e específicas – tais como um golpe na porta por um membro do clã Maclonish ao cair a noite –.

c) o tipo crítico

O argumento decisivo na versão crítica de nossa narrativa é que como um membro do clã Maclean, nós não sentimos obrigação alguma frente ao suposto atributo de "obrigatório". Para nós, é um velho conto que perdeu toda relevância para a ação presente e a realidade. Sem embargo isto não é automaticamente assim: como um Maclean, somos de certo modo parte desta historia, a antiga pedra contém certamente sua inscrição na muralha. Assim, devemos desacreditar a história se não desejamos ajudar Ian em sua desgraça. Devemos apresentar uma nova interpretação que – por meio do raciocínio histórico – negue a validade do tratado.
A maneira mais fácil é declarar que o conto é falso. Para ser convincente, devemos reunir a evidência e ela requer que nos voltemos à argumentação histórica crítica estabelecendo que é plausível o litígio, no entanto, não existem razões históricas que poderiam motivar-nos a oferecer ajuda Ian Maclonish.
Podemos desenvolver uma crítica ideológica, afirmando que houve uma astúcia no meio de tudo: uma armadilha dos Maclonish para manter as Maclean numa espécie de dependência moral sobre eles. Podemos argumentar também que naquele antigo período, estava proibido assassinar bebês, que é o motivo central sobre o qual gira a história. Tal argumentação se baseia em oferecer elementos de uma "contra-narrativa" a aquela gravada na pedra. Por meio dessa "contra-narrativa" podemos desmascarar uma história determinada como um engano, desprestigiá-la como una informação falsa. Podemos argumentar também de outra forma, afirmando que o tratado gravado na pedra perdeu sua validade atual, desde o momento em que novas formas de direito tem emergido desde então. Logo podemos narrar uma "contra história" breve, por exemplo, a historia de como as leis têm mudado com o passar do tempo.
Quais são as características gerais de tal modo de interpretação histórica? Aqui a consciência histórica busca e mobiliza uma classe específica de experiência do passado: a evidência prevista pelas "contra-narrações", desvios que se fazem problemáticos aos sistemas de valores presentes e aos Lebensformen.
O conceito de uma totalidade temporal abarcativa que inclui o passado, o presente e o futuro volta-se, neste modo, como algo negativo: a noção de uma ruptura na permanência da continuidade operativa da consciência. A história funciona como a ferramenta com que se rompe, "se destrói", se decifra tal continuidade – para que se perda seu poder como fonte de orientação no presente –.
As narrativas deste tipo formulam pontos de vista históricos, demarcando-os, distinguindo-os das orientações históricas sustentadas por outros. Por meio dessas histórias críticas dizemos não as orientações temporais predeterminadas de nossa vida.
Em relação a nós e a nossa própria identidade histórica, tais histórias críticas expressam uma negatividade; o que não queremos ser. Nos proporcionam uma oportunidade para definir como não enredarmos em papéis e formas prescritas, predefinidas de autocompreensão. O pensamento histórico-crítico despeja o caminho até a constituição da identidade pela força da negação.
Sua contribuição aos valores morais se inicia em sua crítica aos valores. Desafia a moral apresentando o seu contrário. As narrativas críticas confrontam os valores morais com a evidência histórica de suas origens ou conseqüências imorais. Por exemplo, as feministas modernas criticam o princípio da universalidade moral. Alegam que ele nos leva a considerar a natureza do "outro" nas relações sociais a favor de uma universalização abstrata dos valores como condição suficiente de sua moralidade. Afirmam que tal "universalização" é completamente parcial e ideológica, servindo para estabelecer a regra do masculino como a norma humana geral, fazendo caso omisso da singularidade através do gênero do homem e da mulher como condição necessária da humanidade.10
O pensamento histórico-crítico injeta elementos de argumentação crítica ao raciocínio moral. Colocam em questão a moral apontando a relatividade cultural nos valores, que contrasta com uma universalidade suposta e aparente, descobrindo os fatores de condição temporal que contrasta com uma validade atemporal falsa. Confronta os reclames de validade com a evidência baseada na mudança temporal: o relativo poder das condições e conseqüências históricas. Em sua variante mais elaborada, apresenta ao raciocínio moral como uma crítica ideológica da moral. Dos exemplos clássicos de tal empresa são a crítica de Marx dos valores burgueses11 e a Genealogia da Moral de Nietzsche.12

d) o tipo genético

No centro dos procedimentos para dar sentido ao passado se encontra em si mesmo a mudança. Nesta estrutura, nosso argumento é que "as coisas mudam": nos opomos assim a opção de esconder Ian devido a razões tradicionais ou exemplares e a opção de negar criticamente a obrigação que impõe esta velha história como uma razão para não ocultá-lo. Pelo contrário, aceitamos a história, porém a colocamos numa estrutura de interpretação dentro da qual o tipo de obrigação até os acontecimentos passados tem mudado em si mesmo de uma forma pré-moderna até uma forma moderna de moral. Aqui a mudança é a essência do que dá sentido a historia. Assim o velho tratado perdeu sua validade primeira e tornou-se uma nova; em conseqüência, nosso comportamento necessariamente difere agora do que se defendia que teria sido no passado distante: constrói-se dentro de um processo de desenvolvimento dinâmico.
Portanto elegemos ajudar Ian Maclonish, porém de maneira diferente a prefigurada no tratado preservado na pedra da muralha de nosso castelo. Permitimos que a história se reduza a parte do passado; sem embargo, ao mesmo tempo, lhe concedemos outro futuro. É a mudança propriamente o que dá sentido a história. A mudança temporal se despoja de seu aspecto amenizante, e se transforma no caminho no qual estão abertas as opções para que a atividade humana creia num novo mundo. O futuro supera, sobrepuja efetivamente ao passado no seu direito sobre o presente, um presente conceituado como uma intersecção, uma nudez intensamente temporal, uma transição dinâmica. Esta é a forma quintaessencial de uma espécie de pensamento histórico moderno marcado pela "alegoria de progresso”, embora tenha sido arremessado até uma dúvida radical pelas intimações da pós-modernidade, pensadas por certo segmento da elite intelectual contemporânea.
Neste modelo a memória histórica prefere representar a experiência da realidade passada como acontecimentos alternantes, nos quais as formas de vida e de cultura alojadas evoluem em configurações "modernas" mais positivas.
Aqui a forma dominante de significação histórica é a do desenvolvimento, onde as formas mudam na ordem, paradoxalmente, para manter seu próprio desenvolvimento. Assim a permanência toma uma temporalidade interna, tornando-se dinâmica. Pelo contrario, a permanência através de a tradição, pela regras atemporais exemplares, pela negação crítica, – isto é, a ruptura da continuidade – são todas em essência de natureza estática.
Esta forma de pensamento histórico vê a vida social em toda a abundante complexidade de sua temporalidade absoluta.
Diferentes pautas de vista podem ser aceitos porque se integram numa perspectiva abarcativa de mudança temporal. Retornando a nossa narrativa, nós como o moderno Maclean ansioso de persuadir ao moderno Maclonish de que seria mais sábio para ele entregar-se a polícia, e então aceitar nossa ajuda. Suas expectativas e nossa reação devem cruzar-se. E cremos que essa intersecção é parte da interpretação histórica dentro da qual tratamos a situação atual. Este reconhecimento mútuo é parte da perspectiva futura que derivamos do passado através de nossa decisão no presente, não para oferecer a ele refúgio, senão para ajudá-lo de uma maneira que cremos é mais acorde com a voz de nossa época: "Conheço um bom advogado".
Em relação a nossa autocompreensão e autoconfiança, este tipo de consciência histórica permeia a identidade histórica com uma temporalização essencial. Nos definimos estando num ponto crucial, uma superfície de contato de tempo e feitos, permanentemente em transição. Para seguir sendo o que somos, para não evoluir e mudar, se nos parece como um modo de autodestruição, uma ameaça a nossa identidade.13 Nossa identidade está em nossa incessante mudança.
Dentro do horizonte desta classe de consciência histórica, os valores morais se temporalizam, a moral se despoja de sua natureza estática. O desenvolvimento e a mudança pertencem a moral dos valores conceituada em termos de uma pluralidade de pontos de vista e a aceitação da concreta característica do "outro", do não semelhante, e a mútua aceitação daquele “outro", como a noção dominante de valoração moral.
De acordo com esta temporalização como um princípio, o raciocínio moral depende aqui essencialmente do argumento da mudança temporal como necessária ou decisiva para estabelecer a validade dos valores morais. Portanto, um pode mover-se desde a etapa final no esquema kohlbergiano do desenvolvimento da consciência moral até o estágio mais avançado: os princípios morais incluem sua transformação dentro de um processo de comunicação. É aqui onde eles se realizam concretamente e individualmente, engendrando diferenças; estas por sua vez ativam procedimentos de reconhecimento mútuo, alterando a forma moral original. Uma fascinante ilustração deste estado de argumentação moral, que não se pode elaborar no contexto deste ensaio, é o exemplo de relaciones entre os sexos. A idéia dos Direitos Humanos Universais é outro exemplo claro que demonstra a plausibilidade desta forma genética de argumentação em relação aos valores morais.14
Esta Tipologia se entende como uma ferramenta metodológica e heurística para a investigação comparativa. Na medida em que a moral está conectada com a consciência histórica, podemos usar esta matriz tipológica para ajudar a categorizar e caracterizar as peculiaridades culturais e os traços únicos dos valores morais e os modos de raciocínio moral em diferentes épocas e cenários. Desde o momento em que os elementos dos quatro tipos estão operativamente mesclados no processo que da a vida prática uma orientação histórica no tempo, podemos reconstruir as complexas relaciones entre estes elementos para determinar com precisão e definir especialidade estrutural das manifestações empíricas da consciência histórica e sua relação com os valores morais.15
(...)



QUADRO 1 - OS QUATRO TIPOS DE CONSCIÊNCIA HISTÓRICA


TRADICIONAL
EXEMPLAR
CRÍTICA
GENÉTICA
Experiência do Tempo

Origem e repetição de um modelo cultural e de vida obrigatório.
Variedade de casos representativos de regras gerais de conduta ou sistemas de valores.
Desvios problematizados dos modelos culturais e de vida atuais.

Transformações dos modelos culturais e de vida alheios em outros próprios e aceitáveis.
Formas de significação histórica.

Permanência dos modelos culturais e de vida na mudança temporal.
Regras atemporais de vida social. Valores atemporais.

Ruptura das totalidades temporais por negação de sua validade.
Desenvolvimentos nos que os modelos culturais e de vida mudam para manter   sua permanência.
Orientação da vida exterior.

Afirmação das ordens pré- estabelecidas de acordo com contorno de modelo de vida comum e válida para todos.
Relação de situações particulares com regularidades
que aludem ao passado e ao
futuro.

Delimitação do ponto de vista próprio frente às obrigações pré-estabelecidas.
Aceitação de distintos pontos de vista numa perspectiva abarcativa do desenvolvimento comum.
Orientação da vida interior.

Sistematização dos modelos culturais e de vida por imitação – papel-típico–.

Relação de conceitos próprios a regras e princípios gerais. –Legitimação do rol por generalização –.
Autoconfiança na refutação de obrigações externas – papel-típico–.
Mudança e  transformação dos conceitos próprios como condições necessárias para a permanência e a autoconfiança. Equilíbrio de papéis.
Relação com  os valores morais.

A moralidade é um conceito pré-estabelecido de ordens obrigatórias; a validade moral é  inquestionável:
Estabilidade por tradição.
A moralidade é a generalidade da obrigação dos valores e dos sistemas de valores.
Ruptura do poder moral dos valores pela negação de sua validade.
Temporalização da moralidade. As possibilidades de um desenvolvimento posterior se converte numa condição de moralidade.
Relação com o raciocínio moral.
A razão subjacente aos valores é um suposto efetivo que permite o consenso  sobre questões morais.
Argumentação por generalização, referência a regularidades e princípios.
Crítica dos valores e da ideologia como estratégia do discurso moral.
A mudança temporal se converte num elemento decisivo para a validez dos valores morais.


Para que serve o conhecimento histórico?

Texto 1
A destruição do passado - ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam nossa experiência pessoal à das gerações passadas - é um dos fenômenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que os outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milênio.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos O breve século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 13.

Texto 2
Nada do que é humano será agora alheio ao historiador. Daí a multiplicação de estudos sobre a cultura, os sentimentos, as idéias, as mentalidades, o imaginário, o cotidiano. E também sobre instituições e fenômenos sociais antes considerados de pequena importância, se não irrelevantes, como o casamento, a família, organizações políticas e profissionais, igrejas, etnias, a doença, a velhice, a infância, a educação, as festas e rituais, os movimentos populares.
CARVALHO, José Murilo. Pontos e bordados - escritos de hist6ria e política. BH: UFMG, 1998. p. 454.

Texto 3
A construção de uma memória social, mais precisamente nacional, era a finalidade essencial do ensino da História. A construção de uma memória social é hoje tão indispensável quanto antigamente, mesmo porque ela é um elemento essencial da "identidade social" invocada. A escola e, mais precisamente, o ensino de História têm um papel importante neste domínio. Toda a questão está em saber qual memória social deve-se desenvolver hoje.
Além da memória nacional, outras memórias coletivas podem ser desenvolvidas. A memória familiar é a primeira memória coletiva em que o indivíduo se insere. Cada família tem uma memória marcada pela narrativa da vida de seus membros, pelos acontecimentos, pelas tradições, pelos sistemas de valores. É esse conjunto que constitui sua memória, transmitida de geração a geração, principalmente pela oralidade, mas também pelos documentos escritos, pelas imagens, como as fotografias, e pelos lugares. Essa memória coletiva está, evidentemente, relacionada com a das outras famílias, a dos outros grupos, a das outras instituições e com a da sociedade global.
Mas ela tem sua particularidade, que constitui sua identidade própria. Ao lado dessa memória familiar, existe a memória do trabalho. Trata-se de uma memória em que os lugares possuem grande importância. Ela pode constituir-se com uma longa duração, composta de modos de vida, saberes, técnicas e gestos. Todos os trabalhos possuem sua memória, desde os trabalhos artesanais do passado aos trabalhos mais modernos do presente. Uma outra memória coletiva mais ampla é a memória religiosa, que pode ser aplicada ao cristianismo e às outras religiões.
Essas e outras memórias coletivas impregnam cada indivíduo e tecem as relações com os outros. A memória social não se inscreve de maneira forçada sobre um território, como a memória nacional. É assim que se pode apelar a uma memória da humanidade, esse sentimento mais ou menos confuso que nos une numa cadeia aos homens que nos precederam. Trata-se de fazer a criança compreender que ela faz parte de uma longa cadeia. Essa é a primeira apreensão do tempo da história, da história de outras épocas, o primeiro quadro de uma memória social aberta sobre o mundo.
VOGLER, Jean. Pourquoi enseigner l'histotre à l'école? Paris: Hachette, 1999. p. 6-14.

Texto 4

Os textos oficiais atuais na França atribuem ao ensino da História quatro fmalidades, divididas em dois grandes conjuntos: cultural e intelectual, patrimonial e cívica.
As finalidades culturais - distribuir um saber
A História, tal qual é ensinada, deve, acima de tudo, transmitir um saber científico, que representa uma espécie de "cultura histórica". [...] Esse saber histórico transmitido pelo professor é composto tanto por conhecimentos como por métodos. Por conhecimentos entende-se um conjunto de informações (datas, fatos, nomes e lugares, por exemplo), e também as noções (crises, crenças, revoluções e ciclos) que constituem a linguagem da História. Por métodos entendem-se os procedimentos que permitem a leitura dessa linguagem. Essa grade de leitura é formada por diferentes objetivos (identificar, classificar, problematizar, esquematizar, descobrir as causalidades, medir o tempo, entre outros). As regras que regem a exploração dos documentos do historiador (textos, imagens, mapas e gráficos, por exemplo) também fazem parte da grade.
As finalidades intelectuais - desenvolver o espírito crítico
O ensino da História participa também da formação intelectual mais geral, que consiste em formar e exercer o espírito critico. [...] Trata-se de habituar o aluno a levar em consideração o caráter relativo das sociedades humanas, segundo seu lugar e sua época, assim como apreender sua complexidade e sua diversidade. [...] Essa formação é possível porque o ensino da História permite, ao aluno, compreender o passado e organizá-Io em ordem cronológica, e também porque ela possibilita, ao mesmo tempo, que ele se inscreva, ativamente, num mundo contemporâneo, tomado inteligível a despeito de sua complexidade. O ensino da História supera a simples dimensão cultural (a transmissão de um saber) para adquirir uma dimensão intelectual (o exercício da razão critica). Essa dimensão é privilegiada no sistema educativo hoje.
As finalidades patrimoniais - transmitir a memória coletiva fundadora da identidade
Ensinar História é, também, dar aos alunos uma memória comum, que passa pelo reconhecimento de uma cultura, em que a apropriação é fundadora da identidade do cidadão esclarecido. Assim, o ensino da História deve permitir ao aluno descobrir o patrimônio comum em que ele se insere e do qual é herdeiro, conservá-Io e enriquecê-Io para melhor transmiti-lo às novas gerações.
A finalidade cívica - formar um cidadão responsável e ativo
Essa dimensão cívica está, acima de tudo, ligada à dimensão patrimonial. A história é doadora de uma memória aos alunos, o que permite, ao mesmo tempo, que eles se apropriem de um patrimônio gerador de identidade. [...] A formação de um cidadão esclarecido repousa sobre a apropriação de uma cultura comum e criadora de identidade, concedendo, aos alunos, uma melhor compreensão do mundo contemporâneo de que eles são herdeiros [...]. Trata-se, acima de tudo, de permitir ao aluno desempenhar um papel ativo na sociedade, como cidadão responsável, consciente de seus direitos e deveres e assumindo suas responsabilidades. Ao redor dessa missão essencial, agregam-se noções antigas, como o respeito à laicidade do Estado e às liberdades religiosas, ou outras mais recentes, como a fonte da preservação da convivência. [...] [...] O que importa compreender, aqui, é a coerência dessas finalidades, estreitamente imbricadas. O aluno não poderá se integrar plenamente na cultura da cidade se não se apropriar da herança histórica que estrutura e funda essa mesma cidade. O ensino da História, que supõe a difusão de referências culturais e representações sociais é necessariamente constitutivo de identidades. Essa dimensão "ideológica" do ensino não é inquietante, mas é preciso apreciar sua natureza e dimensionar seus limites e suas possibilidades. Trata-se de transmitir uma memória coletiva, alimentadora do passado e de inculcar as representações sociais legítimas (de fato aquelas que fundam o estado de direito, republicano e democrático). Os alunos (qualquer que seja sua origem) poderão, assim, adquirir referências constitutivas de um sentimento de pertencimento a uma sociedade ou a uma nação e, ao mesmo tempo, inserir-se (assumindo-a) numa consciência coletiva.
Esse sentimento de pertencimento e essa inserção são necessários porque a consciência coletiva participa de um "dever de memória" que a História integra, numa "comunidade de memória", àqueles que são objeto de seu ensino. [...]
AUDIGIER, François et aI. L'épreuve sur dossier au CAPES d'bistoire-geograpbie - Théorie et sujets corrigés. Paris: Seli Arslan, 2001. p. 106-14.

Textos extraídos de: SCHMIDT, M. A.; CAINELLI, M. Ensinar História. São Paulo: Scipione, 2004. (pp. 18-22)

Exercícios

1) Qual a opinião dos historiadores acerca das finalidades do ensino da História? Descreva-as.
2) Para que serve o ensino de História no curso de Matemática? Opine
3) Lendo o texto de Jörn Rüsen, você acredita que sua consciência histórica está próxima de qual “tipo ideal”? Explique.